terça-feira, 1 de abril de 2014

OS SILÊNCIOS DO PAPA

Se o primeiro grande objetivo do Papa é a reforma da cúria romana, penso que sua estratégia por enquanto é de angariar simpatia da mídia, reforçar alianças, conquistar apoios massivos e, sobretudo, não alvoroçar a oposição – que até o momento está aparentemente quieta. É como no futebol, quando o time joga a partida de ida no campo adversário: reforça o meio-campo para não levar gol. É dentro dessa estratégia que entendo – embora o lamente – sua fala cautelosa durante a visita à comunidade popular da Varginha, no Rio de Janeiro. Francisco “tocou a bola” sem avançar mas sem tampouco dar espaços aos adversários. Distribuiu sorrisos e abraços, esbanjou simpatia, fez um discurso leve; enfim, fez uma visita pastoral que deixará boas recordações naquele povo sofrido. Perdeu, porém, três ótimas oportunidades para marcar seus gols e definir a partida.
A primeira oportunidade de gol foi a visita à capela da Comunidade: uma construção pequena, típica dos espaços católicos para as celebrações dominicais quando não vem o padre. Cenário ideal para o Papa falar sobre as Comunidades Eclesiais de Base e estimular a Igreja do Brasil a avançar nesse novo jeito de ser Igreja. Não seria preciso um longo discurso; bastaria explicitar que o Papa estava visitando e abençoando o espaço da CEB local. Seria um golaço!
A segunda oportunidade estava no próprio tema central da sua fala: a solidariedade. Falou muito bem sobre a cultura da solidariedade que leva a “botar água no feijão”, mas não sobre sua forma política concreta: a economia solidária. Ela é capaz de alcançar êxitos extraordinários por meio de uma receita simples: impedir que o dinheiro se transforme em capital e se torne fonte de lucro e juros. Apontar, porém, uma alternativa prática contra o capitalismo poderia ser entendido como provocação aos conservadores. Novamente, Francisco optou pelo silêncio e perdeu o gol.
A terceira oportunidade estava à vista de todos, no campo de futebol de Varginha: um grande painel com a figura de D. Oscar Romero. Certamente, não passou despercebido do Papa. Uma simples menção que levasse ao mundo seu apreço pelo bispo mártir de Nossa América, seria um gol “de placa”. Mas o Papa parece que não viu...
Espero que esta seja mesmo apenas uma estratégia de início de pontificado e que, no próximo jogo Francisco não perca as oportunidades para marcar seus gols.

FONTE: Pedro Ribeiro